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(Em breve, um site. Aguarde!)

Olá, visitante. O objetivo do blog Letronomia é suprir a necessidade de um espaço virtual de divulgação científica especializado em Linguística.

Aqui, falaremos de forma simples e (tentarei) interessante a respeito das várias áreas de estudos da linguagem e de algumas pesquisas feitas nessas mesmas áreas.
Sejam bem vindos ao fascinante mundo da linguagem humana!

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Escolhas lexicais, ideologia e o caso do "é corte ou contingenciamento"?



Olá, leitores do Letronomia. 
Sim, sei que estou em falta (e muita!) com vocês.

Resolvi recomeçar as postagens do Letronomia, trazendo à baila algumas discussões envolvendo o cenário político/social/cultural/econômico do Brasil. O interesse maior do Letronomia é a divulgação científica acerca da Linguística e suas diversas áreas de pesquisa. Entretanto, sendo a língua um objeto social, através do qual interagimos e afetamos diretamente a realidade e as outras pessoas, faz-se necessário apresentar também a forma como, através dos estudos linguísticos, podemos perceber e compreender certos valores e sentidos disseminados pelos discursos Brasil afora.
Vamos começar com uma simples noção, relacionada ao eixo paradigmático, apresentado ainda por Saussure, em seu Curso de Linguística Geral. Não se lembra do que se trata? Então dá uma olhadinha rápida aqui.
Relembrou? Então vamos prosseguir. O que acontece é que, apesar de o sistema linguístico nos fornecer diversos itens que podem ser selecionados (relação paradigmática) e relacionados entre si (relação sintagmática), essa seleção não é arbritrária, muito menos isenta de certo posicionamento ideológico. Isso quer dizer que, ao tomar a palavra, ao produzir seus textos, o sujeito faz uso de determinadas escolhas lexicais, preferindo umas às outras. Em algumas teorias, essa escolha não é completamente consciente. No entanto, as escolhas lexicais acabam por transparecer determinados julgamentos de valor e posicionamentos ideológicos por parte do locutor. Esse tipo de pesquisa é produzido no interior das correntes enunciativas, nomeadamente, na Análise do Discurso.
Vamos nos valer de um exemplo de um analista do discurso. Antes, contudo, diremos, simplificando, que a ideologia é um ponto de vista acerca do mundo e da realidade, a forma como um indivíduo ou grupo entende a vida. Futuramente, prometo apresentar uma definição mais completa e complexa, mas, por ora, essa explicação basta.
Fernandes (2008) realizou uma pesquisa sobre os sentidos atribuídos aos termos “ocupar” e “invadir”, quando se referindo ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Por exemplo, se alguém disser:

(a)    MST ocupa fazenda no Mato Grosso do Sul.
ou
(b)   MST invade fazenda no Mato Grosso do Sul.

notamos que ambos os enunciados se referem ao mesmo fato do mundo real. Entretanto, será que eles realmente significam a mesma coisa? A resposta é óbvia, não é mesmo? Ao escolher dizer “ocupar”, o sujeito parece se posicionar a favor do MST, mas, ao dizer “invadir”, um verbo que denota um julgamento de valor negativo, fica claro que o sujeito não é simpatizante do MST.
            Ou seja, mesmo algumas escolhas lexicais representam julgamentos de valor, fornecendo pistas acerca do posicionamento ideológico, a visão de mundo compartilhada pelo sujeito.
Vamos, agora, partir para o exemplo trazido no título da postagem. Alguns eleitores (digo, leitores! – será um ato falho?) defenderão que o que ocorreria, na verdade, seria um contingenciamento das verbas destinadas às universidades, locais em que se realizam balbúrdias, pelo jeito. Para outros eleitores (errei de novo!), poderia se tratar de um corte, um verdadeiro ataque à produção científica e acadêmica em nosso País. Trata-se do mesmo fenômeno no mundo real, mas a língua não serve como um espelho da realidade, como pretendiam alguns filósofos clássicos. Antes, ela acaba por revelar a forma como cada indivíduo ou grupo compreende o mundo e, aí, entra a noção de ideologia, que chegou aos estudos linguísticos através da Análise do Discurso, ao sofrer influências da filosofia de base marxista.
Ao demonstrar posicionamentos diferentes, a língua auxilia tanto na disseminação de ideologias quanto nas lutas hegemônicas. Cabe ao linguísta que se debruça sobre o discurso averiguar, analisar e descrever empiricamente como se dão os processos de construção e desvelamento de sentidos através desses discursos que tentam naturalizar o que, de fato, é questionável, e muito.
Este post, bem ao contrário dos demais, apresenta forte teor ideológico e posicionamento político. Como linguísta, enquanto cientista, estudante de doutorado, bolsista e professor universitário em uma universidade pública, não posso deixar de me posicionar, pois os cortes que foram anunciados, e alguns efetivados, mesmo que os políticos “voltem atrás”, revelam uma triste realidade: a falta de investimento na educação e na ciência, pilares de uma nação democrática e desenvolvida.
Gostaram dessas discussões? Então não deixem de participar, aqui no blog ou lá na página no Facebook.
Novidades, críticas, comentários, dúvidas e outros posicionamentos ideológicos podem ser deixados ali embaixo, mas tomem cuidado com as escolhas lexicais!
Aproveito para agradecer a todos pela paciência e fidelidade à página e ao blog!

Referências
FERNANDES, Cleudemar Alves. Análise do Discurso - reflexões introdutórias. 3. ed. São Carlos: Claraluz, 2008.
ORLANDI, Eni Pulcinelli. O que é linguística. São Paulo: Editora Brasiliense, 2007.
POSSENTI, Sírio. Teoria do discurso: um caso de múltiplas rupturas. In: MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina. Introdução à linguística. Fundamentos Epistemológicos. Volume 3. São Paulo: Cortez, 2004.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo, Cultrix: 1975.


IMAGEM: foto de Adriano Machado/Reuters, publicada na revista Exame. 



sábado, 24 de março de 2018

A Teoria da Comunicação, de Jakobson, e seus limites




Olá a todos!

Hoje, falaremos de uma das teorias mais influentes, no séc. XX, acerca da comunicação. 
Roman Jakobson foi um proeminente linguista russo que elaborou essa teoria procurando explicar de forma prática a comunicação, visto que os sistemas computacionais que começavam a aparecer na época precisavam aprender a reconhecer, por exemplo, mensagens enviadas entre países inimigos. 

Sua proposta, portanto, procurava explicar o que seria a comunicação a partir de seis elementos: emissor, mensagem, receptor, canal, código e referente

O emissor corresponde àquele que toma a palavra; o receptor, àquele que a recebe; a mensagem é o tema, o assunto sobre o que se fala; o referente é aquilo sobre o que se fala. No entanto, para que a mensagem chegue ao receptor, ela precisa ser codificada e transmitida por um canal. Por exemplo, este texto possui como código a língua portuguesa e chega até você através da internet.

Ainda, Jakobson já vislumbrava, naquela época, que sempre que colocamos a língua em funcionamento, estamos agindo de um modo ou de outro sobre o mundo. Ou seja, a linguagem possui diferentes funções. Para ele, cada uma dessas funções era focada em um dos elementos que compunham o sistema de comunicação:

1. Quando o foco é sobre o referente (chamado, por ele, de contexto), ou seja, sobre objetos, acontecimentos ou pessoas sobre quem se fala, a função é a referencial. Para este linguista, a maior parte dos usos linguísticos recai sobre essa função. Justamente, falar sobre o mundo.

2. Quando o foco se dá sobre o emissor, fala-se da função emotiva, já que, por vezes, o emissor deixa transparecer no seu enunciado algum índice de emoção, como através do uso de interjeições (hoje, sabemos que todo e qualquer texto apresenta, de uma forma ou de outra, marcas dessa subjetividade...).

3.  Quando o foco é sobre a mensagem, temos a função poética, que tem a intenção de proporcionar prazer estético. É o uso literário, artístico da língua.

4. A função contativa, por sua vez, focaliza o receptor da mensagem e diz respeito a todo uso da linguagem que procura levar o outro a agir. Um pedido, uma ordem, a utilização de verbos no imperativo são alguns exemplos.

5. A função fática corresponde à necessidade de se confirmar se o canal de comunicação está funcionando perfeitamente. Como dissemos antes, essa teoria seria aplicada nas engenharias e telecomunicações, portanto, abarcava a comunicação efetuada através de aparelhos eletrônicos. Hoje, poderíamos dizer que o "alô, você está me ouvindo?" dito ao telefone corresponderia a um bom exemplo dessa função. No entanto, até mesmo um "oi", ou "bom dia", ditos para iniciar-se uma interação também seriam exemplos.

6. Por fim, quando a língua se volta sobre ela mesma, falamos sobre a função metalinguística. Basta pensarmos numa coisa: quando os físicos explicam os fenômenos atmosféricos, fazem isso através da língua; quando os biólogos explicam a divisão celular, fazem isso através da língua; e quando explicamos um fenômeno linguístico, fazemos isso através (óbvio) da língua. Ou seja, é a própria língua que é usada para explicá-la. Mas essa função não abarca apenas os termos técnicos (como esses grifados aqui), ou o dicionário, por exemplo, um poema que fala sobre poemas, uma música que fala sobre música e até a reflexão "o que isso quer dizer?" são exemplos da função metalinguística.

Até aqui, essa teoria parece abarcar praticamente todos os usos da linguagem na vida cotidiana, certo? O maior problema dessa abordagem, vendo agora de um tempo já distante, depois de algumas renovações na Linguística, é que ela não abarca devidamente o receptor. Desde a Virada Pragmática, na década de 60, com o surgimento da Linguística deTexto e da Análise do Discurso, sabemos que o destinatárioreceptor, interlocutor, ouvinte, leitor é um sujeito ativo na interação. Ele não recebe simplesmente aquilo que o remetente, emissor, locutor, falante, autor produz. Pelo contrário, o interlocutor pode concordar, discordar, refutar, complementar, negar, enfim, pode se comportar de várias e várias maneiras, contribuindo com a construção efetiva da comunicação.

Não pensem que essa teoria é defasada, errada ou algo do tipo. Apenas saibam que, nos estudos contemporâneos, vemos o receptor como um sujeito que participa de forma mais efetiva na comunicação. 

Até a próxima e desculpem o sumiço... 

Referência: JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. Cultrix, São Paulo: 1970.

domingo, 25 de junho de 2017

Os Neogramáticos



Olá a todos!
Esse post faz parte de uma série que vamos publicar, esporadicamente, que visa a apresentar um pouco acerca da história da Linguística
Hoje, falaremos sobre um movimento muito importante para a consolidação de nossa Ciência tal como se encontra hoje. 
Como todos os estudantes de Letras sabem, a linguagem humana é preocupação de estudos por parte de diferentes pensadores desde o período clássico de Roma e Grécia, no Ocidente, e desde a Antiguidade, na Índia. Lá, ainda no século IV a.C. Panini realizou um estudo gramatical do Sânscrito, uma língua sagrada que era registrada de forma escrita. Graças aos documentos preservados do Sânscrito, foi possível a realização de diversos estudos comparativos que visavam à comparação entre diversas línguas de modo a encontrar-se uma proto-língua que seria a mãe de todas as outras. De fato, muito avanço foi feito, muitos artigos e livros publicados, e os esforços desses diferentes pesquisadores demonstraram que havia muitas semelhanças entre essa língua tão antiga da Índia, o Grego e o Latim. Ou seja, era possível hipotetizar a existência de uma língua mãe de todas as demais faladas no eixo Eupora-Índia: o Proto Indo Europeu.
No entanto, essa corrente tão consolidada não respondia a todas as questões acerca da linguagem. Assim, no século XVIII, um grupo de jovens gramáticos surgiu na Alemanha. No início, esse grupo era chamado de "jovens gramáticos" em tom pejorativo, alcunha que foi traduzida como novos gramáticos, em italiano, e daí surgiu o nome do movimento tal como é conhecido até hoje (CÂMARA JÚNIOR, 2011).
Os Neogramáticos criticavam os estudiosos do método histórico-comparativo por entenderem que a língua é um organismo vivo em constante mutação. Assim, ao analisarem-se as línguas atuais, vivas, os estudiosos poderiam descobrir muitos fatos novos acerca da natureza da linguagem.
Como podemos perceber, havia uma grande influência das Ciências Naturais, principalmente da Biologia, que, nessa época, fazia muitos e consideráveis avanços graças ao Evolucionismo de Darwin. Para esse novo ponto de vista, a linguagem também evoluía a partir de leis regulares, assim como os organismos vivos. 
Os Neogramáticos consolidaram diversas leis de evolução fonética que são aceitas até hoje e, para explicar alguns fenômenos não explicáveis por essas leis gerais, eles trouxeram a noção de "analogia". A analogia é justamente a mudança ocorrida por influência do próprio falante, tal como a criança que, em fase de desenvolvimento da fala, conjuga o verbo fazer como "fazi", em analogia a outros verbos também terminados em -er, como comer e beber.
Desse modo, um importante passo foi dado, já que o falante e os fatores psicológicos começaram a ser levados em conta na explicação dos fenômenos linguísticos. Apesar disso, essa corrente foi criticada por não levar em conta alguns fenômenos sociais, históricos e culturais que também poderiam interfeir na mudança.
A Ciência, qualquer que seja, se faz nessa constante dialética. É através da crítica a um método ou teoria anterior que podemos criar, concretizar novas descobertas e avançar o conhecimento humano.
Não se esqueçam de comentar ali embaixo e chamar os amigos para curtir nossa página no Facebook!
Até a próxima!

Referência: CÂMARA JÚNIOR, Mattoso. História da Linguística. Vozes. Petrópolis, 2011.

domingo, 28 de maio de 2017

Prosódia, Semântica, Estilo e Nooooossa, como ele sabe Linguística!

Olá, seguidores do Letronomia.

Hoje vamos falar um pouco mais acerca das qualidades físicas e articulatórias da linguagem. Ou seja, vamos partir de algumas questões de Fonética, mas, claro, passando pela Fonologia, e chegaremos a tratar dos significados e sentidos diversos.
Bom, para quem está começando a estudar Linguística, ou já é um expert, uma coisa deve ficar bastante clara: tudo na língua trabalha em prol do sentido, da interação. Podemos estudar durante vinte anos a diferença entre um fone e outro, no plano puramente físico, mas isso não seria Linguística, seria algo mais voltado para a Acústica. Se nos interessamos pelas qualidades distintivas, significativas dessas diferenças nos fones (já os tratando, portanto, como fonemas), aí sim estaremos no campo das Ciências da Linguagem
Ficou claro? Então vamos continuar...
Ao lado dos aspectos segmentais da língua (consoantes e vogais), os estudos linguísticos se debruçam, também, sobre os aspectos suprassegmentais, no caso, as características da produção sonora da linguagem que não se limitam aos segmentos, tais como o acento, a intensidade, a altura, a duração, o ritmo, as pausas e até mesmo a qualidade da voz (nasalizada, soprada etc). 
Estamos, assim, no campo da Prosódia, que procura estudar a forma como os aspectos suprassegmentais funcionam nas línguas naturais. Assim:

De um ponto de vista fonológico, as línguas utilizam essas propriedades com objectivos diversos: (i) para marcar os limites das unidades (o acento pode indicar o fim ou o início da palavra; a curva de entoação pode igualmente marcar os limites de unidades prosódicas); (ii) para criar oposições distintivas (nas línguas tonais, o tom de uma sílaba, por contraste com os tons das que a rodeiam, pode opor significados entre duas palavras cujos segmentos são iguais tendo, assim, uma função distintiva); (iii) para distinguir significados globais de construções frásicas (a entoação é usada frequentemente para diferenciar uma interrogação de uma afirmação, por exemplo) (MATEUS et al., 2005, p. 240. Grifos no original). 

A intensidade, relacionada ao acento, diz respeito à amplitude do sinal acústico, a duração, por sua vez, se refere ao tempo de produção de determinado fone. O ritmo se refere à velocidade de articulação e a altura diz respeito à voz mais ou menos grave. 
O acento, em português, tende a coincidir com a sílaba tônica da palavra latina de onde a portuguesa se origina. Além disso, tem caráter distintivo, como podemos observar no clássico exemplo:

sabia (verbo "saber" nas 1ª e 3ª pessoas do singular do pretérito imperfeito do Indicativo) 
sábia (mulher de notável saber)  
sabiá (passarinho)

Além desse breve exemplo, já que esse post é apenas uma introdução, nos ateremos apenas à questão da duração. No latim, a duração de uma vogal possuía valor distintivo. Assim, MALUM, com A longo, significa "maçã", enquanto MALUM, com A breve, significava "mal". Esse traço se perdeu na passagem do latim ao português, no entanto, devido a questões de natureza pragmática e estilística, nós podemos atribuir um sentido diferente a uma palavra quando expressa de modo mais durativo. 
Observe, como exemplo, o meme abaixo:



A expressão "nossa" possui um valor semântico de surpresa, certo? Mas esse "nooossa", com a vogal O alongada, parece aderir um tom irônico à exclamação. Quase uma indignação do gatinho. Aqui, entramos no âmbito da interação, do discurso. Esse valor só será recuperado pelo interlocutor que compartilhe das mesmas vivências e conhecimentos prévios do locutor
A duração da vogal, ou seja, um aspecto suprassegmental, portanto, também pode nos dar pistas acerca da atitude pragmática do locutor, suas intenções comunicativas. 
Essa questão vai um pouco mais além e pode incidir até sobre a imagemdiscursiva que pretendemos passar para o outro. Esse assunto, eu abarco em um artigo que se encontra no prelo e trarei em breve para vocês.

Não se esqueçam, sugestões, opiniões, comentários, reclamações e "noooooossa, como ele fala!" podem ser deixados aqui embaixo!

Até a próxima.

Referência utilizada: MATEUS, Maria Helena Mira; FALÉ, Isabel; FREITAS, Maria João. Fonética e Fonologia do Português. Lisboa: Universidade Aberta, 2005.


domingo, 7 de maio de 2017

O Grau e o velho/novo problema da flexão ou derivação

Acho que todo mundo que estuda Letras gosta de reformular aquela velha expressão que diz "concordo em gênero, número e grau", não é? Costumamos dizer apenas "concordo em gênero e número", esperando que a pessoa estranhe e você possa dar a explicação: "grau não é flexão, não precisa concordar"



Essa questão ocorre pelo seguinte:
1. Quando dizemos "menino bonito", temos, necessariamente, de concordar o gênero do adjetivo ao gênero do substantivo. Logo, a concordância de número é obrigatória.
2. Quando dizemos "meninos bonitos", concordamos o número, proferindo as duas palavras no plural. Mas calma aí... o Português Brasileiro, talvez por influência de línguas africanas ou pela própria deriva linguística natural, não faz a marcação de plural em todas as palavras. Assim, dizemos "os menino ‘tá lá fora". A marcação de plural fica apenas na primeira palavra, já que seria redundante marcar todas as demais. A ideia de plural já está expressa. Nem por isso entendemos que se trata apenas de um menino, não é? Portanto, a concordância de número foi feita.
Agora, quando dizemos "menininho bonitinho", os dois diminutivos foram efetuados por razões estilísticas. Poderíamos dizer "menininho bonito" ou "menino bonitinho", sem que a sintaxe da língua nos diga que devemos fazer concordância. Assim, vemos que a gradação "está diretamente vinculada à perspectiva do emissor que, ao intensificar ou dimensionar, orienta seu interlocutor para juízos de valor a respeito de algo ou alguém" (GONÇALVES, 2016 [2007], p. 149).
Ou seja, utilizaremos o grau para dar ênfase, orientar argumentativamente, atribuirmos valores afetivos (casinha, blusinha, paizão), dentre outras funções pragmáticas
Após uma análise cuidadosa, aplicando vários testes, o linguista Carlos Alexandre Gonçalvez, da UFRJ, sugere que esse impasse seja resolvido considerando-se a existência de um continuum entre a flexão e a derivação, estando o grau em um meio termo. Mesmo assim, dentre os linguistas, parece haver um consenso de que o grau é, sim, um processo derivacional que dá origem a novas palavras, e não flexional. Encontramos, até mesmo, palavras já lexicalizadas que perderam seu valor dimensivo ou intensivo, como "camisinha" e "caminhão". Apesar disso, ainda há muito trabalho a ser feito para que essa questão fique realmente clara, por isso a dicotomia velho/novo problema do título desta postagem. 
Conforme nos diz esse pesquisador:

Sem dúvida alguma, a principal função da morfologia do grau é a expressão da subjetividade: afixos dimensivos e intensivos revelam o impacto pragmático do emissor sobre o referente e, por isso mesmo, seu uso é condicionado (a) pelo nível de envolvimento entre o falante e o ouvinte, (b) pelos propósitos comunicativos do emissor ante a audiência e (c) pelo grau de formalidade do discurso (GONÇALVES, 2016 [2007], p. 165).


Ou seja, é no discurso que os sentidos são negociados e, a depender das relações entre os falantes, do gênero textual e do grau de formalidade que se utilizará determinadas construções efetivadas pela derivação de grau. 

Referência: GONÇALVES, Carlos Alexandre. Flexão e derivação: o grau. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues; BRANDÃO, Silvia Figueiredo. Ensino de gramática: descrição e uso. Contexto: São Paulo, 2016. 

domingo, 26 de março de 2017

A Teoria da Argumentação na Língua: 2ª fase


Olá a todos.
Vimos, em um post anterior, um pouco acerca da primeira fase da Teoria da Argumentação na Língua, proposta por Ascombre e Ducrot. Nessa primeira fase, esses semanticistas teorizam que a argumentação está intrínseca na língua, sendo orientada por operadores argumentativos do tipo mas, então, embora, portanto, contanto...
Posteriormente, os autores perceberam que esses morfemas não seriam suficientes para dar conta de explicar o funcionamento, de fato, da argumentação. Na verdade, desde Aristóteles, em seus Tópicos, é sabido que determinados conhecimentos compartilhados em sociedade são basilares para o bom funcionamento do discurso e, consequentemente, da argumentação.
A partir, portanto, da noção aristotélica, Ducrot propõe a noção de topos vinculada à argumentação. O topos seria um lugar comum, um pensamento aceito e compatilhado por uma dada sociedade. De acordo com ele, para que um argumento A leve o interlocutor a uma conclusão C, é necessário que algumas inferências sejam feitas. Observe:

Está calor. Vamos à praia.

Esse exemplo canônico de Ducrot expressa bem o que estamos tentando demonstrar. Se o locutor diz “está calor” e logo chega à conclusão “devemos ir à praia”, é correto imaginar que exista um topos, um julgamento de valor compartilhado socialmente, que nos diz que os dias quentes são agradáveis e favoráveis a um passeio na praia.
É interessante perceber que mesmo outros autores que se debruçam sobre o processo argumentativo observaram que esse conhecimento de mundo, conhecimento prévio, crenças etc., são fundamentais para que a argumentação encontre seu objetivo: convencer. Assim, em Toulmin vemos outro exemplo clássico:

Harry nasceu nas Bermudas, logo Harry é cidadão britânico.

Embora as informações pareçam não ter ligação direta, o conhecimento compartilhado que diz respeito ao fato de que as Bermudas se encontram sobre jurisdição britânica é necessário para que a argumentação seja completa.
Ou seja, apesar dos esforços empreendidos por Ascombre e Ducrot visando a demonstrar que a argumentação é um mecanismo que depende puramente das formas linguísticas, tal como pretenderam na primeira fase da teoria, os próprios autores perceberam que conhecimentos e informações a nível discursivo são condição sine qua non para que o processo argumentativo se instaure, tal como já era sabido desde a Retórica clássica.

Para saber mais, consulte a obra A Argumentação, de Christian Plantin.


Até a próxima! 

Fonte da imagem: http://blog.insania.com/esta-calor-vamos-a-praia/

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Linguística centrada no uso, por Allan Costa Stein

Allan Costa Stein é doutorando em Linguística pela UFRJ, mestre em Linguística pela UFES, bolsista CNPq e ouvinte das minhas reclamações nas horas vagas.


Linguística centrada no uso:
em foco, as construções com o verbo levar na língua portuguesa



          Esta pesquisa de doutorado teve início em 2016 e está sendo desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob a orientação da Profa. Dra. Maria da Conceição Auxiliadora de Paiva. Pretendemos investigar o surgimento das construções com o verbo levar na língua portuguesa, a partir de uma perspectiva centrada no uso (cf. Bybee 2003, 2010, 2015; Hilpert 2013; Traugott 1995; dentre outros), e, para isso, vamos recorrer a textos que foram produzidos entre os séculos XII e XXI, disponíveis em diferentes corpora, dentre os quais destacamos o Corpus Informatizado do Português Medieval e a Amostra Censo 2000 do Programa de Estudos sobre o Uso da Língua (PEUL/UFRJ).
            Conforme dissemos anteriormente, adotamos uma perspectiva centrada no uso e, portanto, dentre outros, assumimos os seguintes pressupostos teóricos de base: (1) o conhecimento linguístico do falante pode ser capturado por uma rede de construções que possuem diferentes graus de produtividade, esquematicidade e composicionalidade; (2) as construções – aqui concebidas como unidades simbólicas e convencionais que pareiam forma e significado – emergem do uso, a partir da atuação, repetida e constante, de mecanismos cognitivos de domínio geral tais como a categorização, a analogia, o chunking, a memória enriquecida e a associação transmodal (cf. Bybee 2010); (3) o surgimento de construções mais esquemáticas, como as que envolvem o verbo levar na posição especificada, se dá em decorrência do processo de gramaticalização.
            Dos padrões construcionais identificados até o momento, destacamos os seguintes: [LEVAR + SN] (cf. levar um soco), [X LEVAR Y a Z] (cf. A grave crise econômica levou nossa empresa à falência) e [LEVAR + SP] (cf. levar na cara). Esses padrões, na verdade, constituem modos convencionalizados de se falar sobre alguma coisa no mundo e, portanto, uma descrição ideal deve levar em conta os ambientes em que eles ocorrem e as suas principais características em termos de forma e de significado. E mais: é muito importante também que levantemos hipóteses acerca do modo como essas construções se inter-relacionam na rede e quais as consequências do surgimento desses novos nós; contudo, devido ao estágio atual da pesquisa, ainda não é possível apresentar essas informações.

Qualquer dúvida, deixe aqui nos comentários que o Allan se encarregará de responder!

Até a próxima!